Artigo publicado pelo jurista Wilson Ramos Filho, o Xixo, nesta sexta-feira, 26 de dezembro, critica os ataques da grande mídia ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, e aponta semelhanças com métodos da Lava Jato para desestabilizar instituições. Leia a íntegra abaixo:
Estamos todos indignados com as notícias da existência de um contrato de prestação de serviços jurídicos entre um banco quebrado e o escritório da esposa do Ministro Alexandre de Morais. Todavia, não sabemos se os valores são efetivamente aqueles noticiados, nem o escopo declarado dessa contratação que parece mesmo ser escandalosa. Ninguém viu esse contrato e quem o descreve não tem credibilidade.
A Lava Jato não teria existido sem jornalistas com pouco apreço pelos fatos e nenhuma vergonha na cara, pois o lavajatismo foi o combustível da lawfare que criou as condições para o Golpe de 2016, para a prisão injusta e sem provas do candidato que esta melhor colocado nas pesquisas em 2018 e para a eleição de Bolsonaro. Nada disso teria acontecido sem o protagonismo da mesma imprensa canalha que agora ataca ministros do STF.
Quando um pastor deputado de extrema direita foi pilhado com quase meio milhão em seu guarda roupa, quando foi encontrada a fita de vídeo usada por Moro para chantagear autoridades, quando foi apreendido o celular do banqueiro escroque com conversas certamente comprometedoras, soou a flauta do lavajatismo na imprensa e dezenas de ratos começaram a sair dos esgotos. E com eles, milhares de baratas até então confinadas nos fétidos desvãos da obscuridade fofoqueira saíram à luz.
Com essa mais recente infestação do lavajatismo na vida nacional, conduzida pelos mesmos jornalistas que mentiram e manipularam a opinião pública durante o Golpe de 2016, assistimos agora um ataque da mídia corporativa ao STF e ao Ministro Alexandre de Morais, novamente sem provas. O método é o mesmo.
Infelizmente parte da esquerda está se permitindo ser tangida por este lavajatismo redivivo, acometida de um moralismo ingênuo que coloca azeitonas na empada dos inimigos da democracia.
Obviamente se faz absolutamente necessária a criação de um código de ética no judiciário que acabe com a farra dos Congressos, nacionais e internacionais, organizados por parte de seus integrantes ou por associações de magistrados, com a festa das caronas a juízes em jatinhos de réus e de seus advogados, com a advocacia de parentes de Ministros no STF, com a presunção de inexistência de impedimentos e suspeições, com a imoralidade dos orçamentos ilimitados nos tribunais, com o pagamento de penduricalhos, com as safadezas pagas como verbas indenizatórias, com aposentadoria remunerada dos magistrados pegos com baton na cueca e em práticas ilícitas, com a vitalicidade, com as férias de 60 dias no ano, entre tantos absurdos. A imoderação, a volúpia e o apetite desenfreado caracterizam a insaciável magistratura brasileira.
Acabar com a farra com o dinheiro público no Judiciário é absolutamente necessário. Mas a questão é mais ampla e mais complexa. Talvez seja oportuna a criação de um código de conduta que imponha limites éticos à magistratura em geral, começando pelo Supremo Tribunal Federal.
A meu ver, não é atacando e destruindo o Ministro Alexandre de Morais, sem provas, com base em anônimas fontes, que se conseguirá passar a limpo o judiciário brasileiro. Esse é o jogo da extrema direita e dos inimigos da democracia.
Respondendo ao jornalista Breno Altman o médico psicanalista Sergio Alarcon fez uma reflexão interessante, que deixo aqui para que comentem.
Respeito profundamente Breno Altman e escrevo este texto como uma resposta respeitosa a ele.
Breno tem criticado setores da esquerda que defendem Alexandre de Moraes, alertando para os riscos de que essa defesa acabe legitimando excessos judiciais capazes, a longo prazo, de criar armadilhas e fortalecer a narrativa autoritária da direita.
De minha parte, não me considero ingênuo – talvez aí resida justamente a minha ingenuidade. Quando Temer indicou Moraes ao STF, não tive dúvidas: mais um inimigo no poder. Critiquei-o duramente. Com o tempo, porém, ficou claro que coragem para desobedecer pretensos patrões ele tem. E certos princípios – o oposto do Vampiro. À época, não havia espaço para vacilação. Ocorre que, às vezes, é preciso ter coragem até para errar ao invés de se deixar paralisar.
Você há de concordar que Moraes talvez não seja exatamente um inimigo hoje; talvez, no máximo, um adversário futuro – e adversários, diferentemente de inimigos, podem, em certas conjunturas, compor conosco em nome de algo maior. Alckmin e Simone Tebet estão aí para não me deixar mentir.
Uma verdade incômoda que devemos sempre repetir – e vou aqui repetir – é que guerras não se vencem com vacilações. Passei anos pelejando contra lavajatistas, olavistas e bozistas – como, felizmente, um número considerável de brasileiros. Creio já ter compreendido um pouco da maneira de agir desses canalhas. Merval, Malu Gaspar e congêneres deixei de ler e ouvir no momento em que ficou claro que não passam de instrumentos daqueles que não toleram a verdade quando ela incomoda. Se seus nomes me aparecem hoje, é porque seus patrões estão tramando contra o Brasil e os brasileiros. Não há como vacilar quanto ao lado a tomar – por princípio e em princípio.
Há muito tempo li um filósofo chamado Jacques Rancière. Em O Ódio à Democracia acho que ele ajuda a entender em parte esse nosso cenário. Rancière mostra que o verdadeiro ódio à democracia não se dirige necessariamente à sua forma institucional, mas à possibilidade de que a igualdade irrompa de baixo e desestabilize aqueles que se julgam naturalmente autorizados a mandar – os “competentes”, os especialistas, os ricos, os togados. Em outras palavras, aquilo que chamamos de “elite”. Essa chave ajuda a compreender a irracionalidade do ódio a Lula e o antipetismo estrutural. Meio óbvio… concordo.
E, à primeira vista, ela parece menos óbvia para entender o bozismo, que expressa um ódio à democracia vindo dos “de baixo”. Mas não vem dos trabalhadores – e sim do lumpesinato, da escória, dos jagunços da Casa Grande. Ainda assim, essa contradição é apenas aparente. Bozismo e lavajatismo são duas faces do mesmo ódio à democracia. O primeiro, mais tosco e arrivista, aceita – ao menos temporariamente – sua associação aos velhos donos do poder, dos quais foi serviçal, e busca impor-se pela força bruta e pela ameaça golpista franca contra a ordem institucional. É o lado da moeda do oito ou oitenta. Acabou com centenas de presidiários, incluindo o líder. O segundo tenta restaurar a hierarquia oligárquica por meio da simulação de uma “justiça técnica”, do punitivismo midiático e da elevação sistemática de fofocas à condição de prova judicial. O lawfare. Conseguiram fazer muitos acreditarem que a deposição de Dilma não foi golpe – caso do Ouriques – pois não promoveram uma ruptura da ordem institucional. Nunca foram devidamente punidos provavelmente por isso também.
A normalização de acusações sem provas por jornalistas – ou por grandes empresas de jornalismo – faz parte do lawfare, e deveria ser seriamente problematizada pela sociedade. O problema não é a publicação da fofoca em si, mas tratá-la imediatamente como evidência, elevá-la à categoria de verdade judicial e, a partir daí, construir narrativas punitivistas completas, funcionando em rede. À época do lawfare contra Lula, Globo, Estadão e Folha frequentemente estampavam manchetes praticamente idênticas, enviesadas na mesma direção. O que fazem hoje com Moraes parece a repetição do método testado com sucesso pelo lavajatismo e que, ao final, serviu de laboratório para o avanço do bozismo nas redes sociais e que valeu a eleição de 2018. Com Moro como Ministro do atual presidiário – farinha do mesmo saco.
O lavajatismo, aliás, não é uma abstração imoral. É uma máfia política ativa e perigosa, que segue operando mesmo com seu principal expoente, Moro, hoje cercado por investigações no STF e na Polícia Federal. Buscas autorizadas recentemente na própria 13ª Vara de Curitiba revelaram provas documentais de grampos ilegais contra autoridades com foro privilegiado. Aqui não se trata de “ouvi dizer”. Estranhamente, isso não se tornou escândalo para Merval ou Malu. Tampouco recebeu do Jornal Nacional a atenção devida. E, no entanto, não estamos falando de fofocas atribuídas a “seis fontes” anônimas e inalcançáveis. São fatos – fatos que ajudam, inclusive, a explicar parte dos ataques a Moraes. Claro que podemos acreditar agora em “coincidências”… mas aí a guerra está perdida.
Por isso, Breno, defender a democracia, nesse contexto, não é sacralizar juízes nem romantizar o STF como salvador da pátria. O próprio Rancière nos alerta para a longa duração dos Estados de direito oligárquicos disfarçados, nos quais o poder se concentra sob o pretexto da “competência” técnica, despolitizando a igualdade real. Foi exatamente esse o discurso jornalístico que criou o Moro-herói da Globo e presidenciável da Faria Lima. Hoje sabemos que essa suposta “competência técnica” não passava de uma farsa – uma narrativa construída -, como evidenciam tanto o “recorta-e-cola” da juíza lavajatista Gabriela Hardt quanto as irregularidades processuais comprovadas na Lava Jato, reveladas pela Vaza Jato e pelas anulações no STF. Não temos ilusões a respeito.
Em suma, Breno: não defendo Moraes. Defendo a democracia. E os ataques a Moraes, vindos de quem vêm, têm o nariz, os olhos, as rugas e a boca torta dos inimigos históricos da democracia como princípio. Não podemos vacilar: em uma democracia conflituosa, sob ataque golpista aberto, todas as estratégias devem se voltar para alianças capazes da contenção da catástrofe maior – o retorno da ditadura declarada. Trata-se de antes de uma trégua tática na luta pela igualdade, não de uma legitimação eterna.
Os que hoje acusam o STF de promover uma “ditadura do Judiciário” realizam exatamente a inversão perversa descrita por Rancière: gritam “fim da democracia” justamente quando se pune quem tentou destruí-la em 8 de janeiro e depois. O verdadeiro ódio à democracia é o deles, não o de quem resiste.
2026 pode ser decisivo: derrotar, num só movimento, o lavajatismo – com Moro, seus asseclas e seus jornalistas cúmplices respondendo judicialmente pelas irregularidades comprovadas – e o bozismo, não apenas por meio de prisões, mas também com a limpeza do Congresso dessa organização criminosa.” »
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Fonte: GGN