
Por iniciativa da vereadora Sibele Nery (PT), realizou-se na Câmara Municipal de Itapetinga uma Sessão Especial dedicada à conscientização racial e ao combate ao preconceito e ao racismo. Nas exposições, promoveram-se as mais profundas reflexões acerca da interseção entre religiosidade e racismo estrutural. A cosmovisão das matrizes africanas foi elucidada com notável clareza, ensejando um vigoroso apelo aos presentes: a necessidade de transcender a mera aparência dos preceitos religiosos proclamados nos templos, confrontando a triste realidade exterior — marcada por intolerância, racismo e preconceito contra confissões não cristãs.

Embora a plateia fosse majoritariamente cristã — incluindo o prefeito Eduardo Hagge e os vereadores Tiquinho, Anderson, Neto Ferraz e a própria proponente Sibele Nery — o ambiente foi palco de respeito mútuo e enriquecimento intelectual, erigindo-se como paradigmático. O Dr. Luciano, docente da UESB, proclamou com eloquência: “Acolho a crença em uma divindade única, ainda que venerada em espaços distintos: terreiros para uns, igrejas para outros. Não cultuamos demônios ou santos; nossas crenças alicerçam-se em outros princípios de fé, e sustentamos ser perfeitamente viável a convivência harmoniosa.” Ao término, ressoaram cantigas sagradas e o rufar dos atabaques!
“A condição racista não é inata; forja-se no âmbito familiar e nas estruturas sociais, como escolas, igrejas e meios de comunicação”, declarou o Dr. Fernando, professor da Universidade Federal de Sergipe. “Fomos historicamente doutrinados a emular um ideal europeu, negligenciando a riquíssima diversidade do povo brasileiro.” Ademais, ressaltou a inconstitucionalidade da prática parlamentar de ler versículos bíblicos — por violar o caráter laico do Estado —, lançando um provocativo questionamento: “Imaginemos se todas as religiões exigissem a leitura de seus textos sagrados nesta tribuna?”
Consolidou-se entre os presentes a compreensão de que o combate ao racismo é imperioso para a excelência das relações humanas, bem como a urgência de reparações históricas. Com a abolição em 1888, os negros foram lançados à própria sorte, enquanto senhores de escravos e latifundiários recebiam indenizações. Paralelamente, imigrantes europeus que aqui aportaram fugindo da miséria obtiveram lotes de terra para prosperar, contrastando com a luta negra por reparações — cujo ápice conquistado restringe-se a políticas de cotas educacionais.